Os 40 anos de Pink Floyd “Animals”

Ao chegar da segunda metade da década de 70 começava a pairar na atmosfera bretã o ar crescente do punk. O movimento que vomitava protestos contra o sistema sócio-governamental, tinha como ícone-mor a banda Sex Pistols, capitaneada pelo vocalista John Lydon, o Johnny Rotten.

Este chegou a ostentar a frase “I hate Pink Floyd” (“Eu odeio Pink Floyd”), impactante numa época em que o rock progressivo esbarrava nos seus próprios gigantismo, enquanto o movimento nascente pregava a simplicidade e música direta ao ponto, apesar de passados trinta anos, o mesmo Lydon declarara que a frase não teria passado de uma grande piada e que “Você precisaria ser muito estúpido para odiá-los. Eles fizeram coisas grandes”.

De fato o rock progressivo notorizou-se pela sofisticação, elaboração e arte ousada e o Pink Floyd não só trazia tudo isso, bem como o trazia num patamar bem acima de outros grupos, especialmente no absoluto sucesso, o álbum “The Dark Side Of The Moon”(1973), um dos maiores sucessos fonográficos de todos os tempos e seu sucessor, o disco “Wish You Were Here”(1975), que apesar de não ter sido tão arrebatador quanto o anterior, manteve a banda inglesa num elevado padrão de excelência.

Neste contexto, em 23 de janeiro no Reino Unido e 12 de fevereiro de 1977 na América, chegou às lojas o álbum “Animals”, gravado entre abril e novembro do ano anterior no Britannia Row, estúdio localizado num prédio de três andares de Londres, comprado pelo grupo. O trabalho tem sua produção artística amplamente dominada por Roger Waters, aqui já praticamente se levantando como um “dono” da banda, minando ao máximo as contribuições de David Gilmour e Richard Wright nas composições, tendo este último ficado de fora dos créditos pela primeira vez desde a estreia do grupo.

Embora sonoramente soasse totalmente diferente do som do punk rock, “Animals” tinha uma temática em comum, na qual Waters através de uma feliz analogia com o best seller de George Orwell, “Animal Farm” (A Revolução dos Bichos), estabeleceu um tripé de músicas onde associava cada animal a um tipo de ser humano da sociedade, onde os porcos seriam os políticos corruptos, os cães, a autoridade repressora e os carneiros sendo todos aqueles que passivamente aceitam tudo o que lhes impõem.

Sagaz que sempre foi, Roger Waters aproveitou o conceito de “Animals” para cutucar pontualmente certas personalidades tais como a ativista bretânica Mary Whitehouse, que pregava a política da sociedade passiva ao sistema. Tal referência encontra-se na canção “Pigs (Three Different Ones), terceira faixa do disco. As duas micro-faixas que abre e fecha o disco, “Pigs on the wing” partes 1 e 2, é uma alusão ao relacionamento denso de Waters com sua então mulher, Carolyne Christie. também “homenageada” na segunda música, a espetacular “Dogs”, única em que o guitarrista David Gilmour aparece em co-autoria e numa magistral performance. Fechando a trinca, a quarta faixa “Sheep”, uma canção forte e bem trabalhada, traz uma paródia do Salmo 23 da Bíblia Sagrada em sua letra, referente aos servos que sempre seguem e acatam seus líderes. Aqui temos um grande momento do tecladista Richard Wright, que mesmo sem estar nada inspirado devido ao clima horroroso que o levou a ser demitido logo em breve, fez um excelente trabalho nas teclas.

A iconica capa de Animals, desenvolvida pela Hipgnosis trouxe a imagem da termelétrica londrina de Battersea ganhando a companhia de um porco inflável de 9 metros, chamado Algie, que se tornaria uma mascote da banda dali em diante, aparecendo constantemente nos shows em estádios. Tal paisagem da capa revela a tamanha densidade do conceito desta obra.

O baterista Nick Mason, também ausente nas composições (seu último crédito foi com no álbum The Dark Side of The Moon) contribuiu aqui com sua caligrafia para a fonte das letras do encarte.

Terceiro disco da sequência de quatro que seria o “Quadrado Mágico” do Pink Floyd, “Animals” estourou na paradas bretã, alcançando nela o segundo posto, enquanto que do outro lado do Atlântico, cravou o terceiro lugar na parada americana.

Considero aqui o marco da fase cítrico-magoada do Pink Floyd, a fase wateriana dominante, que chegaria ao seu topo no álbum seguinte, a ópera rock “The Wall” tendo seu corte final a seguir com o epitáfio floydiano de Roger Waters, “The Final Cut”.

Pink Floyd “Animals”

Faixas:

1 – “Pigs on the Wing” part 1

2 – “Dogs”

3 – Pigs (Three Different Ones)

4 – Sheep

5 – “Pigs on the Wing” part 2.

Ouçam aqui: https://open.spotify.com/user/masterslate/playlist/6liQ96N6FpzSgUfpm1YVUS

Por André Floyd.

 

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